top of page

Vai ter carnaval?

Atualizado: 22 de dez. de 2021

Uma análise da relação e a responsabilidade entre o Poder Público Municipal e o carnaval

ree

O relatório final elaborado pela Comissão Especial de Carnaval, cuja a finalidade é analisar a relação e a responsabilidade entre o Poder Publico Municipal e o carnaval, foi lançado no início de dezembro e apresentado ao público na última quarta-feira, dia 15, na Garagem Delas, na Praça Tiradentes. A proposta do relatório elaborado após muitos encontros, audiências publicas e discussões realizadas com pessoas que organizam a festa e com especialistas e autoridades sanitárias é exatamente ajudar o poder publico a responder essa pergunta

O vereador Tarcísio Motta presidente da Comissão, apesar de otimista, não esconde suas preocupações:

- Temos que ficar atentos aos dados epistemológicos. Os indicadores que foram sugeridos por representantes da Fiocruz e da Faculdade de Medicina da UFRJ, quando analisados de forma integrada, apontam para a viabilidade do carnaval na cidade. Se os números continuarem positivos e nos favorecendo não vejo problemas, desde que sejam cumpridas as orientações da ciência para a realização do carnaval, mas entendo que com qualquer sinal desfavorável, qualquer aumento de casos devemos ligar o sinal de alerta e, se for o caso, e se fizer necessário, não vejo outra alternativa que não seja cancelar a festa.

A declaração do prefeito Eduardo Paes que em nota nas redes sociais, publicada também em 15 de dezembro, garantiu a realização do carnaval na Marques de Sapucaí preocupou os organizadores da Comissão Especial de Carnaval. Dizia a nota: "Havendo a possibilidade, como há nesse momento e acontece semanalmente, de realização dos jogos de futebol com os controles já previstos nas normas estabelecidas pela prefeitura, não há qualquer motivo para não garantirmos que o Carnaval da Sapucaí seja realizado". Tarcísio Motta entende a nota como algo preocupante:

- Não consigo bem entender o que o prefeito deseja exatamente. O desejo é de um carnaval apenas para os ricos, para as elites? Questionou e prosseguiu:

- Não podemos perder de vista que o carnaval de rua é a possibilidade de encontros das pessoas das mais variadas camadas sociais, é onde muitos trabalhadores de diversos setores conseguem obter algum dinheiro para sobreviver. Vivemos uma grande crise financeira, com pessoas passando necessidades e não podemos pensar um carnaval apenas para as elites. Se uns tem o direito, todos devem ter o mesmo direito – afirmou


"Carnaval é território de afirmação de identidades , do direito à ocupação dos espaços públicos, de visibilidade de vozes negadas, de fortalecimento de laços sociais e de pertencimento mais comunitário numa clara oposição ao projeto neoliberal de individualização da vida. É um poderoso instrumento de conscientização política”.

Kiko Horta - Fundador do Cordão do Boitatá


Um estudo para além da Pandemia

“Vai ter carnaval”? - Enganam-se, os que pensam que a pergunta esteja diretamente associada ao carnaval de 2022 e a Covid 19. Obviamente, depois da não realização da Festa de Momo em 2021 em razão pandemia que paralisou o mundo, é natural que se faça um link entre carnaval, pandemia, segurança e sociedade, mas a pergunta antecede a pandemia e a atual administração de Eduardo Paes.

A Comissão Especial de carnaval foi criada há cinco anos e desde então, se reúne anualmente com representantes das ligas, blocos, escolas de samba, foliões, camelôs e pesquisadores das mais diversas áreas e com representantes do poder publico para diagnosticar os principais desafios do carnaval carioca.

O objetivo principal da Comissão composta por Tarcísio Motta (PSOL). Verônica Costa (DEM) e relatoria da vereadora Mônica Benicio (PSOL) é o de sugerir propostas e políticas públicas para a defesa, promoção, garantia do direito ao carnaval, uma conquista adquirida em 19 de março de 2021, através de uma Lei Orgânica do Município do Rio de Janeiro.

A luta pelo carnaval vai muito além da pandemia: O direito a brincar, se extravasar, se deliciar na maior festa popular do mundo, vem sendo agredida de muitas formas e das mais diversas maneiras. Para muitos o maior erro do carnaval carioca é estar atrelado à Secretaria de Turismo e, em muitas ocasiões, à Secretaria de Ordem Pública.

Ao longo dos últimos anos muitos são os exemplos da tentativa de aniquilamento do carnaval carioca – de forma ingênua ou premeditada. Em razão disso, uma Comissão Especial para analisar as demandas do carnaval nunca se fez tão necessária. O esvaziamento ou a tentaiva de se esvaziar o carnaval passa por diversos pontos, dentre eles:

- Os prefeitos que privilegiam escolas de samba em detrimento aos blocos;

- As perseguições aos ambulantes

- A repressão aos foliões

- A imposição da venda da marca de apenas uma cerveja

- O monopólio de apenas uma empresa que detém o direito de negociar o carnaval de rua da cidade e obtém lucros exorbitantes com o carnaval dos blocos.

- As campanhas que multam mijões, mesmo sem a prefeitura ou a empresa que detém o monopólio do carnaval de rua ofertar banheiros em números suficientes.

- Administradores que misturam questões religiosas com manifestações culturais e se utilizam de todos os meios que dispunham para diminuir a importância da festa

- De secretários de ordem pública – totalmente despreparados e sem competência -, que nada entendiam de carnaval e se auto denominavam “xerifes da ordem”.

- De presidentes de Escolas de samba que por razões particulares obedecem cegamente às determinações do prefeito e seus colaboradores

- De representante de blocos que pensando em um cargo qualquer e ficar “bem na fita” negociam com os representantes do prefeito e se transformam em verdadeiros serviçais

- Os denominados blocos alienígenas - chamados de "blocões" que aproveitam do carnaval para fixar suas marcas e promover artistas. Já ocorreu o caso de se tentar implantar abadás no carnaval de rua do Rio - uma proposta que foi absolutamente rejeitada pela sociedade carioca.

A lista de descaso e desrespeito para com o carnaval , para as pessoas que, verdadeiramente fazem a festa – muito especialmente os organizadores dos blocos – vem de longe e vai muito além do que se pode imaginar.


"O carnaval, afinal de contas, é a celebração coletiva que afronta o individualismo e a decadência da vida em grupo. Um ritual de reavivamento de laços contrários ao da diluição comunitária, fortalecendo pertencimentos e sociabilidades e criando redes de proteção social nas frestas do desencanto"

Luiz Antonio Simas - Historiador e escritor


ree

Carnaval em tempos de pandemia

Ao longo de todo ano de 2121 a Comissão Especial de Carnaval realizou oito audiências públicas: Em maio o encontro foi sobre o caderno de encargos do carnaval de rua. Em junho, pra se cobrar políticas emergenciais prometidos pela prefeitura aos blocos e aos trabalhadores dos barracões das escolas de samba; em setembro, novo encontro sobre o caderno de encargos.

Em outubro foram discutidos os critérios e indicadores epidemiológicos em 15 de outubro ocorreu uma Audiência Pública sobre o carnaval de rua, , no dia 22, uma audiência sobre as escolas de samba que desfilam na Sapucaí e na Intendente Magalhães, no dia 3 de novembro audiência sobre blocos de embalo, banda e blocos afros que desfilam na Av. Chile e no dia 19 de novembro uma audiência para receber a posição final da prefeitura sobre a série de debates realizadas durante o ano.

ree

A cantora Áurea Martins com a vereadora Monica Benício , o compositor Moacyr Luz com o vereador Tarcísio Motta e o músico Tiago Prata e a Associação Brasileira de Passistas de Samba foram alguns dos homenageados


Durante o lançamento do Relatório da Comissão Especial do Carnaval foram homenageadas diversas pessoas e entidades que colaboram para o carnaval da cidade. Dentre os homenageados estavam relacionados:

Medalha Chiquinha Gonzaga:* Áurea Martins

Medalha Pedro Ernesto:* Pretinho da Serrinha, Cordão do Boitatá e Escravos da Mauá.

Moções de Louvor:* Liga Coreto, Liga Sambare, Liga Folia Carioca, Liga CarnaFolia, Liga Sebastiana, Liga Amigos do Zé Pereira, Liga Centro-RJ, Liga de Blocos e Bandas da Zona Portuária, Liga Independente dos Blocos de Embalo do Estado do Rio de Janeiro - LIBERJ, Federação dos Blocos Afro e Afoxés do Estado do Rio de Janeiro - FEBARJ, Desliga dos Blocos, MUCA, Garagem Delas, APASB - Associação Brasileira de Passistas de Samba do Brasil/Ciro do Agogo, Sindicato dos Profissionais da Dança do Rio de Janeiro, SIBC - Samba Independente dos Bons Costumes, Samba que elas Querem, Moacyr Luz e Samba do Trabalhador, Bip Bip, Gloriosa Roda de Samba, Balaio Bom, Candogueiro, Moça Prosa


ree

O relatório da Comissão Especial de Carnaval é um caderno com 126 páginas muito bem elaborado que aborda todas as discussões realizadas sobre o carnaval de 2022.

Além disso, e contendo contém entrevistas com KIKO Horta, (Fundador do Cordão do Boitatá) Skeal Jorgea, (Primeira Porta Bandeira da Estação Primeira de Mangueira) e Jorge Medronho, (Médico, professor de Epidemiologia da Faculdade de Medicina da UFRJ) e os textos " "Carnaval em Tempos de Colera" do historiador Luiz Antonio Simas e o "Futuro é pra se lembrar", da cantora e compositora Marina Iris

O relatório pode ser obtido no endereço:

https://psolcarioca.com.br/2021/12/17/vai-ter-carnaval/



1 comentário


adiltiscatti
21 de dez. de 2021

Excelente matéria, séria, embasada, texto fluido e claro, opiniões(mesmo conflitantes) respeitadas e citadas. Parabéns ao Capital Cultural por mais essa contribuição ao debate sobre Carnaval e pandemia.

Curtir
bottom of page