Pau Brasil: um elo entre a Academia e o Carnaval
- Virgilio Virgílio de Souza
- há 21 horas
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Com iniciativa da Faculdade de Filosofia da UFRJ – Universidade do Rio de Janeiro - foi lançada na manhã desta segunda-feira, (09) na Maravalley (Zona Portuária), a revista Pau Brasil – Saberes do Carnaval. O objetivo é possibilitar que o universo acadêmico mergulhe numa outra reflexão sobre memórias e sistema de saberes propiciando aos pesquisadores um novo olhar sobre as mais diversas áreas e a realidade de nossa maior festa popular. A publicação faz parte do lançamento do I Primeiro Congresso Brasileiro do Carnaval, denominado “Origem”, com o objetivo de articular saberes acadêmicos e tradicionais, memórias, práticas culturais e economia criativa.
A idealizadora e editora da revista é a professora Helena Theodoro, primeira mulher negra a obter título de doutora em filosofia em 1985 e que, além de apaixonada pelo carnaval, tem muitos anos de estudos dedicados a essa temática. No lançamento da revista, ela não escondia sua alegria e fez questão de agradecer à universidade pela coragem de abraçar a iniciativa e falou da importância da revista para o universo da Academia.
- Fico emocionada com o lançamento da revista e me sinto gratificada pela universidade e outros parceiros terem abraçado a ideia. O objetivo é aproximar a academia do universo do carnaval, uma manifestação de todas as classes sociais. Precisamos entender o carnaval em todas suas formas de manifestações como a maior festa que produzimos, quer seja através das escolas de samba, blocos, grupos de afoxé, maracatu e demais agremiações. É nossa maior manifestação cultural quer seja coletiva ou individualmente. Não podemos perder de vista que, além da potencialidade cultural, essa é uma celebração que gera milhares de empregos diretos e indiretos. É fundamental que a Academia esteja incluída nesse contexto – comentou.
Compuseram ainda a mesa de lançamento da revista o diretor do departamento de filosofia Rafael Haddock Lobo, o pesquisador de música brasileira Ricardo Cravo Albin, o carnavalesco e comentarista de carnaval Milton Cunha, o professor doutor Ivanir dos Santos, o presidente do Instituto Cultural Candonga, Maurício Candonga, e a presidente da Sebastiana Rita Fernandes, que é presidente da Associação Independente dos blocos do Centro e Zona Sul.
Haddock Lobo se disse lisonjeado de compor uma mesa com pessoas tão ilustres no universo do samba e disse estar ali não como um especialista no assunto, mas em função de um cargo administrativo:
- Sou apaixonado pelo carnaval, gosto da festa e de toda a organização que envolve a festa, mas confesso que fico extremamente feliz por estar ao lado de pessoas, verdadeiros mestres, e que realmente entendem de carnaval e muito gratificado por poder trabalhar uma das principais manifestações de nossa cultura popular e mais especialmente dentro do Departamento de Filosofia.
Ricardo Cravo Albin, considerado um dos mais importantes estudiosos da música brasileira, ao longo de sua fala fez questão de destacar a importância e a singularidade do carnaval:
- O carnaval possibilita e prova o que é extremamente difícil de se compreender, que é transformar uma grande festa popular em uma manifestação de afeto e amor. Mostra a alma de um país pacífico que fica em paz nessa magia, nessa mágica manifestação.
O analista de carnaval Milton Cunha, graduado em Psicologia, com Mestrado e Doutorado na UFRJ em Letras (Ciência da Literatura), sobre a Rapsódia Brasileira de Joãozinho Trinta, é uma dessas raras figuras que transita com tranquilidade entre o universo da academia e as manifestações de rua. Ele exaltou a criação da revista e não escondia uma ponta de emoção ao falar do carnaval em suas mais diversas formas:
- O carnaval cria a possibilidade de ver a loucura se transformar em algo real. A carnavalização toma nossas vidas, nossas realidades, nossas ruas através das manifestações individuais, de nossas fantasias, de nossas escolas, nossos blocos. É a festa de todos. Antes era uma festa só das pessoas brancas, mas os negros desceram, invadiram a festa e ensinaram: “é assim que se faz, é assim que se brinca, rompendo com o carnaval da branquitude”. Fico feliz que o saber popular, a sabedoria popular ganhe a universidade.
Sem mencionar o sistema de cotas, Ivanir dos Santos fez questão de ressaltar que muitas das transformações que acontecem dentro da universidade se deram a partir do momento em que alguns setores da academia perceberam que tão importante quanto discutir os saberes acadêmicos era necessário olhar para a experiência de vida, possibilitando, com isso, que muitas pessoas que não pertenciam ao universo da academia poderiam acrescentar em muito com o conhecimento acadêmico. Criar oportunidades para outros segmentos, abrir as portas das universidades para outros saberes foi um dos maiores acertos da academia. Olhou-se para a diversidade e isso tem colaborado em muito para uma sociedade melhor.
Maurício Candonga lembrou que o carnaval é a maior demonstração de resistência do povo preto e nossa maior manifestação cultural e, por isso, tem que ser respeitado por todos os segmentos e todos os setores da sociedade. Salientou que o espaço Candoga será, como sempre foi, um espaço de resistência. Presidente da Sebastiana, que reúne blocos do Centro e Zona Sul, a jornalista Rita Fernandes:
É bom surgir uma revista ligada à academia e a pessoas tão importantes no universo do carnaval. A realidade é que sempre fomos vistos de maneira geral como quaisquer coisas, menos como cultura. Representamos sim uma cultura que se desdobra em várias faces. É pelo carnaval que vemos as transformações políticas e sociais. Não resta qualquer dúvida de que a festa é importante, mas não podemos nos esquecer de que a essência do carnaval é muito mais importante que a festa.







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