Olhar o Togo e o Benin
- Virgilio Virgílio de Souza
- há 25 minutos
- 6 min de leitura

Conhecer o Togo e o Benin. Um sonho antigo, que por muitos anos me perseguia.
Gratidão à vida.
Realização...
Essa a sensação que tive ao comprar as passagens e depois, ver a data da viagem se aproximando, com o luxuoso direito de cinco dias em Paris na ida e mais dez na volta. A viagem, seria a oportunidade de olhar de perto a face de dois países, que contribuíram decisivamente para a formação racial, social, cultural e religiosa do nosso país.
Habitava em mim, uma sensação de prazer ao sentir o ar da denominada Costa da Mina, mais tarde rebatizada por Costa dos Escravos, esse território que atualmente corresponde ao Togo, Benim, Gana e Nigéria. Países invadidos, estuprados e de onde saíram sequestrados entre 1574 e 1856, grande parte dos 5 milhões de pessoas escravizadas que chegaram ao Brasil.
Deixei Paris com uma ponta de ansiedade, para complicar e por uma questão de custos, tive de fazer uma escala de três horas em Casablanca (Marrocos). Finalmente, cheguei ao Togo. Nos primeiros dias, caminhar pelas ruas largas de Lomé, uma capital que parece inacabada, ou ainda a se construir, foi curioso. Não existem ‘shoppings’, grandes restaurantes ou grandes lojas de departamentos. A sensação é mesmo de um lugar feio, de extrema pobreza e desorganização. A principal atração é uma grande feira livre bem no Centro da cidade, denominado "le Grand Marché de Lomé" onde circulam milhares de pessoas diariamente.
Milhares de pessoas circulam diariamente pelo denominado "le Grand Marché de Lomé", a principal atração da capital
Bem no meio de toda aquela agitação uma igreja construída em 1905, desperta a atenção: trata-se da “Inglese des Sacra Coueur” ou “Catedral alemã”. Em estilo gótico, o interior da igreja é surpreendente. Algo de fazer qualquer fanático conservador se despentear. Todas as imagens são caracterizadas com pessoas negras, inclusive Jesus e a Virgem Maria. Entrar na igreja é dar uma respirada em meio a toda aquela agitação.
No interior da igreja quadros pintados por artistas locais mostram uma face negra de João
durante o batismo, de José e Maria e do próprio Cristo durante a Via Crucis
Durante a semana, é um mar de gente. É muita gente andando de um lado pra o outro, vendendo comprando, gritando, oferecendo mercadorias que se torna, impossível sentir o lugar na sua totalidade, em sua plenitude. Para ver melhor os aspetos do agitado coração da capital, e arquitetura foi necessário fazer uma visita num dia de domingo. Cabe ressaltar que domingo é o dia que as pessoas deixam seus afazeres para frequentarem suas respectivas igrejas ou templos.
A feira em si, demonstra as contradições do país, compra-se de tudo: os tradicionais panos com a suas estampas multicoloridas e de cores fortes, ervas medicinais, peixe defumado, castanha, amendoim, artigos e produtos que mantém a tradição do país. Por outro pode se comprar os últimos modelos de celulares lançados no mercado e nos grandes ‘shoppings’ de qualquer grande capital do mundo: aparelhos de som, motos, roupas de grife, tudo isso, geralmente, no meio da rua ou em lojinhas improvisadas.
O país traz em muitos locais lembranças da colonização. Na Orla, bem de frente ao grande mercado, um gigantesco esqueleto todo de ferro de um cais. Além da Igreja de “Sant Crer Couer”, o Caís é outro marco da presença dos germânicos, que exploraram o Togo entre 1864 e 1916. O enorme porto servia, principalmente para levar tudo que podia e que coubesse nos navios: – tecidos, madeira, café, cacau, milho, ouro...
Lomé é a pintura que retrata a realidade de um país pobre, pacato, mas que, apesar de toda a exploração que sofreu não vive num estado de miserabilidade.
O tempo e a exploração deixaram suas marcas. Bem próximo ao Caís feito pelos alemães, há uma concentração de pessoas pobres, que se fixaram da Orla onde há um grande calçadão localizaddo bem em frente a essa grande feira livre. Famílias inteiras, com muitos meninos ficam ali, circulam por ali, como se fosse uma área restrita, embora não o seja. Se viram como podem, mas parece existir um pacto: não são incomodados e não incomodam ninguém.
Na Orla de Lomé, próximo ao Caís todo de ferro construido pelos alemães, que ursuparam os mais diversos produtos do pais, familias pobres se agromeram. Nesse trecho, há ainda um grande estacionamento de motos
Curioso nesse contexto é o fato de não existirem pessoas pedindo nas ruas (raramente meninos num número muito reduzido percebendo que se trata de um turista, pede algum dinheiro). Não se observa também pessoas dormindo ou jogadas pelas calçadas. Nos dez dias que fiquei em Lomé, não constei essa realidade. Ninguém dorme nas ruas.
Diferente do Rio de Janeiro e das grandes capitais brasileiras com as suas guardas municipais, polícia civil, polícia militar, exército, no Togo, uma coisa que praticamente inexiste é presença policial. Raramente se vê viaturas policiais. Não é frequente, mas o que se vê, muito raramente, são caminhões do exército ocupados pela Guarda Nacional – algo que dá uma tristeza no coração de um brasileiro que viu de perto nas ruas do Brasil a presença feroz e voraz e cantarolou ao som de Geraldo Vandré: "Há soldados armados amados ou não, nos quartéis lhes ensinam antigas lições, de morrer pela pátria e viver sem razão".
Dez coisas que despertam a atenção em Lomé
A incrível História de um país onde se tolera pessoas urinando nas ruas e se olha com olhar de reprovação se uma pessoa joga uma guimba de cigarros na rua
1) As pessoas, homens, mulheres e crianças detestam fotos e pedem com cara de poucos amigos e até com tom ameaçador para não serem fotografados.
2) Não existem transporte coletivos nos moldes do Brasil e outros países realizados por ônibus. Todo o transporte público é feito por triciclos e motos. Ônibus são raros e só existem de uma cidade para outra. Existem também os ônibus da Universidade de Lomé, que transportam alunos dos bairros da periferia e passam pelo Centro duas vezes por dia, na parte da manhã e na parte da tarde. As motos chegam transportar até quatro pessoas
3) As pessoas são extremamente educadas e gentis. Costumam parar o que estiverem fazendo para dar uma informação e se a distância for curta são capazes de levar a pessoa ao local que estão procurando.
4) No Togo, como um todo, e principalmente em Lomé, há uma grande dificuldade em se encontrar cigarros para comprar. O número de fumantes praticamente inexiste e as mulheres não fumam (pelo menos não encontrei nas ruas e locais sociais uma que fumasse). Nem no Campus da Universidade que reúne alunos de outros países, não é comum se fumar. Acham feio, deselegante e que polui o corpo e o ar.
Na foto acima são transportadas cinco pessoas: uma criança no colo do motociclista e duas na frente da mãe. Também é normal pessoas lavarem roupas nas ruas e outras, durante à noite, colocarem fogo no lixo que varreram das portas de suas casas
5) Segundo os institutos, o Togo tem uma população de 9,9 milhões de habitantes, com 2,3 milhões vivendo em Lomé. Cerca de 51% dos togoleses são animistas. O segundo maior grupo religioso é formado por cristãos que somam 29%, dos quais, 21% católicos, protestantes e dos restantes 7%, 1% pertencem a outras confissões cristãs, o restante da população é essencialmente da fé islâmica.
6) Não é comum observar pessoas vendendo ou usando drogas. A punição, sem direito a qualquer tipo de recurso, é pesada para usuários (dois anos) e muito pesada para traficantes (6 anos)
7) É muito comum ver pessoas urinando nas ruas. Muitos homens urinam sem qualquer constrangimento
8) Nos bairros de periferia embora as ruas não sejam asfaltadas e não existam calçadas tudo é muito limpo. Cada morador varre a frente da sua porta, pois a frente da sua casa é um ponto comercial, e no final da noite colocam fogo no lixo recolhido. Cada um vende o que pode, amendoim, bolinho de chuva, vassouras.
9) Em toda e qualquer esquina há uma barraquinha vendendo recarga de celular e as pessoas sobre nenhuma hipótese oferecem (disponibilizam) o wifi.
10) Os assaltos, furtos e roubos também praticamente inxistem. A justiça é feita pela propria sociedade. Na semana que cheguei, soube do caso de um rapaz que tinha roubado uma moto e foi julgado pelos próprios motociclistas. Sua pena foi tomar uma dose de arsênio.
Há uma razão para os togoloses não gostarem de ser fotografados: onde os turistas vêm "coisa bonita", "algo diferente" e em alguns casos até de belos e exóticos, o que existe na verdade, é muito suor, muito trabalho, muita ralação
No próximo poste:
a razão pela qual a Alemanha perdeu direitos sobre o Togo
A vida noturna e os "points" em Lomé
A dupla realidade dos bairros de periferia
As tristes lembranças de uma casa onde se abrigam escravos
Benin: a Pátria dos quatro elementos: terra, agua, fogo e vento





































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