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O Brasil diante do espelho... 

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Volta e meia, tudo volta e ouvimos o comentário de que o Brasil nasceu errado, se constituiu de forma equivocada, que é uma “Republiqueta das Bananas”, que só tem Pelé e café e não vai dar certo de jeito nenhum. De certa forma, essas insinuações/afirmações nos fazem lembrar a música “O que será”, de Chico Buarque, que diz o seguinte: “O que não tem governo, nem nunca terá. O que não tem vergonha, nem nunca terá. O que não tem juízo”.  Não. Definitivamente, me recuso a crer que o Brasil, que se coloca entre as 10 maiores economias do mundo, esteja fadado ao fracasso. Incrédulo,  me percebo pensando na letra  “Que País É Este”, de Renato Russo: “Nas favelas, no Senado/. Sujeira pra todo lado/. Ninguém respeita a Constituição/. Mas todos acreditam no futuro da nação”

Não, não existe essa história de nós contra eles, o que existe é uma classe dominante que tem o eterno desejo de manter tudo como está, com os mais pobres, os periféricos, os favelados, os professores, os assalariados como um sub-Brasil. Por isso, tanta oposição aos programas sociais. Por isso, tanto ódio de classe. Feliz foi a reflexão de Tom Jobim: “O Brazil não conhece o Brasil./O Brasil nunca foi ao Brazil./ O Brasil S.O.S. ao Brasil”.

Se falamos de uma queda de braço do Brasil contra eles, não podemos deixar de mencionar Darcy Ribeiro, que afirmou várias e várias vezes: “O Brasil tem uma classe dominante ranzinza, azeda, medíocre, cobiçosa, que não deixa o país ir pra frente!”. A exemplo de Darcy Ribeiro, há uma grande parcela -diga-se de passagem, a maioria -, nesse “Brasilsão de meu Deus”, que sonha com um país melhor, mais igualitário, mais solidário, enfim, um país onde possa se viver com dignidade. Uma parcela que viveu para ver pela primeira vez o Brasil se colocar diante do espelho.

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Carlos Drummond de Andrade foi ingênuo ao afirmar que “há uma pedra no meio do caminho, que no meio do caminho existe uma pedra”. O buraco é mais embaixo, bem mais embaixo e mais complexo. Na verdade, há uma encruzilhada no meio do caminho, no meio do caminho há uma encruzilhada. Uma encruzilhada habitada não por Exus que abrem caminhos, mas também por eguns da pior espécie, que trazem em suas entranhas a velha síndrome de vira-latas, um dia identificada por  Nelson Rodrigues.

O julgamento de Bolsonaro nos coloca diante de um dilema: devemos sorrir ou chorar?

- Sorrir porque nunca na história deste país se colocou no banco dos réus militares de alta patente. Nunca na história desse país se julgou um ex-presidente e todos seus colaboradores (comparsas), por tentativa de golpe, por tramar o assassinato de um presidente eleito, de seu vice e de um ministro do Supremo Tribunal Federal.

Ou devemos chorar porque ainda existem pessoas – verdadeiros "bichos escrotos” – que questionam e se opõem à nossa carta magna.

Diria Ulisses Guimarães, presidente da Assembleia Nacional Constituinte, exatamente no dia 5 de outubro de 1988: “A Constituição certamente não é perfeita. Ela própria o confessa, ao admitir a reforma. Quanto a ela, discordar, sim. Divergir, sim. Descumprir, jamais. Afrontá-la, nunca. Traidor da Constituição, é traidor da Pátria. E em outro momento prossegue: canalhas, canalhas, canalhas...

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Nossa jovem Constituição completa 37 anos. Com a ascensão de Bolsonaro, esses canalhas e traidores da pátria saíram de seus túmulos e, exaltando Brilhante Ustra, sonham em dar um novo golpe, nem que para isso tenham que rasgar a Constituição. Nessas quatro décadas, desde a Constituição, o tempo passou, a realidade do país mudou e o que temos hoje é uma classe política imbecil, estúpida, grotesca. Políticos bancados por uma elite financeira que não quer largar o osso e se perpetuar no poder. Mas, por outro lado, temos também uma sociedade atenta, que já não se deixa enganar tanto. A vitória de Lula nas eleições de 2022, mesmo com todas armações, trambiques e eleitores que não concordavam com a continuidade do que estava posto, sendo impedidos de votar, é o maior demonstrativo de que já não suportamos arroubos ditatoriais.

Como foram burros esses senhores endinheirados em financiar candidatos tão toscos e despreparados e como fomos burros enquanto sociedade em eleger para o Congresso e Senado figuras tão desprezíveis. Por não terem conteúdo, espalham fake News. Em 1987, o poeta e cronista Carlos Eduardo de Novaes, no poema “A implosão da Mentira” parecia antever a realidade que vivemos hoje: “Mentem e calam. Mas suas frases falam. / E desfilam de tal modo nuas que mesmo um cego pode ver a verdade em trapos pelas ruas. / Sei que a verdade é difícil e para alguns é cara e escura. / Mas não se chega à verdade, pela mentira, nem à democracia pela ditadura.

O Brasil se coloca diante do espelho, porque ainda nesse mês de setembro será concluído o julgamento do falso Messias, todos seus colaboradores e da massa de manobra que depredou os três poderes, que quis colocar bomba e explodir o aeroporto de Brasília. Sim, seres que pareciam zumbis, acampados diante dos quartéis pedindo a volta da “dita-dura”, “para o exército salvar o Brasil” ou rezando pra pneus. Pessoas que, das quais o próprio Bolsonaro em depoimento ao STF, quis se desvencilhar, e, após tê-las usado, as definiu da seguinte maneira: “tem sempre uns malucos que ficam com aquelas ideias de AI 5, de intervenção militar. Nada posso fazer em relação a isso. Não tenho nada com isso”

Triste sina. De bananinha em bananinha, de chupetinha em chupetinha, corta o coração ver figuras tão rasas associadas a pastores que transformaram o altar em palanque político, destilando ódio, salivando pelos cantos da boca e defendendo que os norte-americanos imponham tarifas sobre o Brasil. Nesse rol de gente esquisita, está o neto do último ditador, um verdadeiro "ratinho da ditadura`" que também conspira contra o Brasil. Seguramente, a exemplo do avô, prefere o cheiro de cavalo ao cheiro de povo. Nesse rol, não podemos nos esquecer da pistoleira presa na Itália. O cirquinho dessa gente pega fogo, pois ao que parece,  STF fechou as porteiras e não vão passar a boiada.

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Quando terminarmos de enfrentar essa realidade, é torcer para sermos um país não só de empresários que sonegam impostos, de latifundiários, que criaram as capitanias hereditárias, que dizimaram os índios e criaram todas as resistências para libertar os escravos e inventaram a Lei da Vadiagem. Uma gente tosca e escrota que se opôs às Diretas Já, e agora pede anistia pra golpistas. Estamos em setembro, e como escreveu o mineiro Beto Guedes, falando de um tempo que se foi: “Já choramos muito/. Muitos se perderam no caminho/. Mesmo assim, não custa inventar uma nova canção/. Que venha nos trazer Sol de primavera/Abre as janelas do meu peito. /A lição sabemos de cor/. Só nos resta aprender/.  

Si, já estamos em setembro, e não demora viveremos a ocorrência do equinócio, que dá início à primavera, que se estende entre os meses de setembro e outubro. Que a magia desse equinócio, muito mais que flores, nos traga lucidez, justiça e respeito à Constituição. Vale lembrar que setembro é o prenúncio de outubro e parecendo dar continuidade à letra de Beto Guedes, o também mineiro Milton Nascimento, na canção “O que foi feito, Devera”, nos remete a sonhos destruídos, desconstruídos, apagados: "O que foi feito, amigo./ De tudo que a gente sonhou? / O que foi feito da vida? / O que foi feito do amor? Outros outubros virão./ Outras manhãs. /Plenas de Sol e de luz.

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