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Na luta contra o racismo, amor e cultura


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Participaram da mesa os atores Babu Santana e Lázaro Ramos, a deputada Dani Monteiro, o pastor Henrique Vieira a coreógrafa e produtora Valéria Mona e a cantora Dorayice. O evento se iniciou com a poesia e o hip hop de Xandy do jacarezinho e de Guilherme Lopes.


Reflexões sobre o amor em tempos difíceis

O racismo, o preconceito, o autoritarismo mais que nunca permeia nossa sociedade e, de uns tempos para cá, ganhou contornos ainda mais sombrios e de muita intolerância. Pessoas de diferentes classes sociais compraram o discurso desse ódio que paira no ar.

Estranhas pessoas que enquanto se dizem cristãs, que falam em nome de Jesus, fazem arminhas com as mãos, e sem nenhuma empatia, disseminam rancor e indiferença. Há também aqueles que nem se escondem atrás de Jesus, apenas escancaram as portas do armário destilando ódio por todos os cantos.

Em busca de uma reflexão sobre esses tempos estranhos foi realizado no Teatro do Oprimido, na Lapa, na terça (12), o encontro denominado “Amor & Cultura na Luta contra o Racismo”. O local estava completamente lotado de intelectuais, estudantes, músicos, profissionais liberais e artistas e pessoas vindas de diversas partes da cidade para ouvir um pouco como se comportar em um momento de tanto acirramento e adversidade.


Afeto e solidariedade, antídotos contra o ódio


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Padre Henrique Vieira que é pastor da Igreja Batista Caminho de Cristo e, por ser progressista, tem causado incomodo em bispos reacionários das igrejas neopentecostais e na ala mais conservadora da igreja católica, falou dos muitos desafios que a sociedade tem pela frente em tempos tão conturbados, e da importância da cultura e do afeto em nosso cotidiano. Ele não poupou críticas aos denominados bispos carismáticos:

- Nosso desafio é lutar pela cultura, pela refundação do Ministério da Cultura, dos pontos de cultura. Cultura tem a ver com a existência, com o brilho nos olhos e não apenas com sobrevivência. É poesia, é teatro, é cinema, é dança e, muito mais que sobrevivência, é existência. Queremos ver uma juventude sem medo de andar pelas ruas e sem sangue nos uniformes, vítimas de balas perdidas. Temos também que lutar e esvaziar esse fundamentalismo político/religioso. São pessoas que não gostam de cultura, não gostam da produção cultural, não gostam de qualquer pessoa que pense e faça pensar. São lideranças sempre brancas – Silas Malafaia, Pastor Feliciano, Edir de Macedo – que precisamos combater. É preciso lutar e enfrentar porque Jesus não morreu numa cama quentinha, não morreu por idade, mas sim porque lutou e combateu o mal e nossa função, é combater esse tempo tão sombrio de pessoas tão sombrias - completou.

A cantora Dolaryce sempre atuante e convicta, principalmente nas causas das mulheres e contra o machismo exacerbado em nossa sociedade, falou de forma direta e clara sobre o que pensa, o momento que estamos vivemos e de que maneira podemos passar por um processo de transformação:

- Temos que entender que nossa luta não é feita somente de afetos, mas o afeto, em momentos assim é fundamental, pois toda vez que você lança um discurso de amor, de afeto, de solidariedade você mata um discurso de ódio, você dissipa essa coisa ruim que esta no ar. Temos que eleger mais mulheres e mais pretos se quisermos pensar em mudanças. Nosso afeto tem que ser instrumento de nossa revolução. Vivemos uma guerra de narrativas. Se as mulheres estivessem no poder esses absurdos que vivemos não existiriam. Somos fortes e intensos e isso preocupa e, em razão disso, temos que nos unir - comentou


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Uma plateia heterogênea assistiu atentamente a explanação de cada um dos componenetes da mesa


Babu Santana nascido no Vidigal e que já trabalhou em uma barraca de feira na Praia de Ipanema e iniciou sua vitoriosa carreira na Cia de Teatro Nós no Morro, sabe bem as dificuldades dos negros na sociedade brasileira. Sabe o quão é complicado se projetar no meio artístico e das dificuldades que estamos enfrentando atualmente em razão de tanto ódio:

- Eu nunca fui de participar de coletivos ou movimentos. Confesso que só soube do potencial da Marielle depois de o fato ter ocorrido. Nunca fui muito de me enturmar e até pra votar tinha dificuldades. Nas últimas eleições a convicção que tinha era a de que meu voto seria em uma mulher preta. Achei um santinho no chão e, por incrível que pareça, era da Dani Monteiro com quem hoje divido essa mesa. Todos sabemos que as dificuldades são muito grandes, principalmente, nesses tempos de tanta intolerância. Penso que só a parceria, o amor e o afeto para nos salvar. O importante é não deixar nenhum companheiro de lado, temos que trazer um ao outro para o meio do ringue. Não podemos deixar ninguém ficar no canto. Confesso que sempre tive medo de sair do meu canto e me machucar, mas confesso que a arte e o amor me salvaram. Quanto a esse tempos difíceis e truculentos que vivemos, tenho certeza de que o amor, o afeto, a generosidade vai nos salvar de tudo isso.

A coreografa, atriz, e escritora Valéria Mona não escondia sua alegria de participar da mesa e poder falar de esperança em tempos tão difíceis:

- É um tempo de poder falar e acreditar que podemos resgatar o amor, a dignidade, o respeito. Fico feliz de estar aqui, pois é sempre um aprendizado e sempre a oportunidade de novas possibilidades. Minha esperança real é que o próximo governo traga de volta o fortalecimento da cultura e estejamos juntos nessa batalha que é de cada um de nós. Juntos somos extremamente fortes – ponderou.

O ator Lázaro Ramos apesar de dizer que em alguns momentos se sente desiludido com tudo que estamos vivendo, afirmou que o importante é que não percamos a fé e a esperança:

- Temos que ter claro que mais que nunca precisamos lutar e sonhar para continuarmos. Precisamos de nos fazer representar. É necessário um Congresso com mais pretos, com mais mulheres. Precisamos sonhar muito, lutar muito e espalhar muito amor. Eu às vezes me sinto meio desestimulado, mesmo meio cansado, pois parece que permanentemente estou pedindo, brigando por direitos, pelo que é direito. Precisamos estar fortes e tirar esse governo genocida. Ele precisa sair. Tem que sair desse lugar que nunca deveria ter ocupado. Pra mim não podemos parar de lutar, temos que retomar a utopia. É preciso saber que somos muitos e não estamos sós.

Dani Monteiro é a deputada mais jovem da ALERJ – Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro – onde preside a Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania. Não é para menos, ela nasceu no Morro de São Carlos, é uma árdua defensora dos direitos humanos e uma pessoa extremamente ligada aos movimentos culturais que acontecem em todas as partes da cidade. Em sua fala, fez questão de enfatizar a potencialidade de nossa produção cultural, da tentativa de esvaziamento da cultura e da necessidade de mais que nunca estarmos juntos num momento de tanto ódio no ar:

- Essa resistência, essa força cultural só existe porque existe a coletividade, o afeto, e a troca que nos impulsiona e não o ódio que tentam espalhar. Há uma tentativa de esvaziamento cultural que é um projeto de perda de identidade. Falar de cultura é falar de história, de perseguição e, que ao longo da história foi até motivo de prisão. A perseguição é constante, pois o objetivo é nos impedir de sonhar. Nos bairros periféricos não existe nada vindo do poder público, o único braço é a força policial. O hip hop, por exemplo é uma força de transformação que previne e preserva nossos jovens. Mais que nunca temos que estar juntos, trocarmos afetos para derrotar esse ódio - finalizou.


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