top of page

A síndrome de viralatismo da imprensa hemogenea

Quando li sobre a criação de um Mundial de Clubes, achei uma grande sacada. Seria a oportunidade de colocar as principais forças do futebol mundial numa mesma competição.

Mas me surpreendi e fiquei decepcionado quando comecei a perceber a tendência de vira latismo da grande parte de nossa mídia – jornais, rádios e televisões -, que criticavam, ironizavam e desmoralizavam abertamente nossas equipes. Afirmavam a grande maioria de nossos analistas esportivos que seria um fiasco, que nossos times dariam vexame, que o futebol europeu está há décadas na nossa frente.

ree

Pensei com meus botões: será mesmo que Botafogo, Flamengo, Fluminense e Palmeiras são tão ruins, tão mulambos, tão desqualificados assim?

Seriam mesmo apenas figurantes. Será que iriam dar vexame e pagar mico diante das potencialidades futebolísticas europeias cantadas e decantadas por nossa crônica?

Me entristeceu principalmente o tratamento dispensado ao Botafogo (campeão brasileiro e da libertadores) que, para alguns desses entendidos, seria esmagado pelo PSG, entendido como o melhor time do mundo. Pior para o Botafogo é que teria ainda no mesmo grupo o Atlético de Madri. Afirmavam ironizando que o Botafogo nem deveria ter ido, pois passaria vexame e voltaria logo na primeira fase.

Para esses senhores, o Fluminense seria triturado pelo Borussia, na primeira rodada, e, se conseguisse se refazer da goleada que sofreria e um pouco de sorte, poderia se classificar disputando o segundo lugar.

O Flamengo seria outro, que, com um pouco de sorte, poderia se classificar em segundo, mas sem qualquer dúvida seria atropelado pelo “poderoso” Chelsea na segunda rodada. Mas o rubro negro amassou o Chelsea, se classificou com folga e tem time para passar por cima de qualquer um desses “gigantes europeus”. O Fluminense não foi goleado pelo Borussia, como se previa, fez uma bela partida onde a vitória seria o resultado mais justo. Contra o Mamelodi Sundowns, vacilou, mas mostrou capacidade de superação e num jogo emocionante virou para o placar em 4 a 2. Em síntese:  jogou o suficiente para garantir sua vaga.

Diante de opiniões tão convictas que traziam um ar de arrogância, de nossos mestres analistas do futebol, decidi me silenciar e esperar a primeira fase de grupos, pois nossos cronistas esportivos poderiam estar mesmo cobertos de razões e “euzinho” que nada entendo, deveria estar totalmente equivocado.

Terminada a fase de grupos, penso em Nelson Rodrigues, que em 58, afirmou que temos uma síndrome de vira-latas e, pelo que se percebe, 66 anos após sua declaração, parte de nossos cronistas esportivos não perderam essa mania. Aliás, todos esses formadores de opinião deveriam obrigatoriamente ler Nelson Rodrigues. Pode até ser normal ver um comentarista sem muita formação falar bobagens, mas jornalistas não. Sabem que uma coisa é noticiar, informar e não dar pitaco e viver de achismos e opiniões levianas, como fazem alguns.

Nesse sábado, se inicia a fase de oitavas de final. O vira latismo, mesmo que essa gente tenha tomado um pouco mais de cautela, se reinicia, de novo acena, entra em cena. Já preveem que o Fluminense será triturado pela Inter de Milão e que o Flamengo não obterá sucesso contra o Bayer e sugerem, até, que poderiam voltar juntos e no mesmo avião para economizar. Duas das maiores forças do Brasil já entram em campo derrotadas por nossos analistas.

Pouco comentam sobre a partida entre Botafogo e Palmeiras. Isso não importa, o que importa é que já sabem que quem chegar às quartas de final enfrentará o vencedor de Benfica e Chelsea e, que diante disso, tanto Botafogo quanto Palmeiras se despedirão da competição. É ser muito vira lata.

Acho pouco provável, mas torço fervorosamente por uma final brasileira. Nessa fase, estarão frente a frente, algumas das principais forças do futebol mundial. Embate entre forças tidas como superiores e uma final brasileira talvez contribuísse para que nossos “especialistas em futebol”, perdessem um pouco a síndrome de vira-latinhas amuados.

Até posso questionar e duvidar das opiniões de nossos cronistas, mas alguns deles já recorreram aos sites de apostas que utilizam Inteligência Artificial na expectativa de verem corroboradas  suas previsões.

A inteligência artificial é fria e cruel. Diz que o Palmeiras tem 54% de chances de se classificar contra 58% do Botafogo. Salienta, entretanto, que nenhum dos dois passaria das quartas de final      

Já o Flamengo, segundo a IA tem apenas 21 % contra 79% do Bayer, em síntese: já esta eliminado. Já o Fluminense, com apenas 22% contra 78% do Inter de Milão também pode arrumar as malas.

Pensando bem, por duas razões principais, não devemos dar créditos aos pessimistas de plantão contaminados pela síndrome de vira latas e muito menos à Inteligência Artificial, que apontou a eliminação do Botafogo na primeira fase. Errou feio.

Futebol é emoção e exatamente por isso, a torcida do Botafogo canta fervorosamente: “E ninguém cala esse nosso amor”.

A inteligência artificial nada sabe de afetos, afetividades, paixão, sentimentos, que podem superar o mais difícil adversário. A lógica muitas vezes não tem lógica e quando a inteligência artificial já tem elaborada para cada pergunta, resposta, resultados, a magia, o encantamento do manto tricolor ou da nação rubro negra, pode mudar todas as respostas, lógicas e previsões. Saberia a inteligência Artificial separar uniforme de manto.  Saberia PSG, Real Madrid, Inter de Milão ou Bayer o que é um manto? - Não, eles usam uniformes. Manto é muito mais, é algo indecifrável, indefinível. É magia pura.

Deixo para os cronistas pessimistas e para a lógica da IA, duas frases de Nelson Rodrigues e uma de Vinicius de Moraes:

Flamengo

“Quando o Flamengo vence, há mais amor nos morros, mais doçura nos lares, mais vibração nas ruas, a vida canta, os ânimos se roboram, o homem trabalha mais e melhor”.

Fluminense.

“ Eu vos digo que o melhor time do mundo é o Fluminense. E podem dizer que os fatos provam ao contrário, que eu vos respondo: pior para os fatos”.

 Botafogo

Terminamos com o trecho da de uma canção de Vinícius de Moraes que fala da magia de se torcer pelo Botafogo.

Está tudo muito certo, Mr. Buster –

o Sr. ainda acabará governador do seu estado

E sem dúvida presidente de muitas companhias

de petróleo, aço e consciências enlatadas.

Mas me diga uma coisa, Mr. Buster

Me diga sinceramente uma coisa, Mr. Buster:

O Sr. sabe lá o que é um choro de Pixinguinha?

O Sr. sabe lá o que é ter uma jabuticabeira no quintal?

O Sr. sabe lá o que é torcer pelo Botafogo?

 
 
 

Comentários


bottom of page