O Brasil, a seleção e os jabutis,...
- Virgilio Virgílio de Souza
- 14 de jul.
- 5 min de leitura
Ninguém sabe como chegou lá, ninguém sabe quem colocou lá, a única coisa que sabemos é que está lá. Essa frase, que se transformou num dito popular, pode ser o exemplo perfeito da seleção brasileira de um país que permanece se alimentando de pão e circo. De uma coisa não podemos nos furtar: “Nunca antes na história desse país tivemos uma seleção tão sem tesão, tão sem noção, tão sem futebol". Cantaria a torcida pelos : "Vergonha, Vergonha, time sem vergonha".

Os mais jovens, desinformados - esses mesmos que dizem que não tivemos um Golpe -, que não viram a genialidade de nossos grandes craques, e alguns comentaristas com surtos de “síndrome de vira-latas” tentam convencer que alguns jogadores só pelo fato de atuarem no exterior, são fenomenais. Que nosso goleiro, que, apesar de metade do Brasil não saber o nome é uma marulha, que Marquinhos é um xerifão que Casemiro é um cérebro no meio-campo e, que Rafinha joga muito. Não seria exagero dizer, que Vini Junior foi o único sopro de inspiração e nos fez lembrar toda a elegância do futebol pentacampeão do mundo. Parecia um vagalume em meio a tanta escuridão e de tanta incompetência.
Neymar, desde a Copa de 2018, na Rússia, quando criou a figura do “jogador cai-cai”, pois se jogava ao chão simulando faltas em todas as jogadas, acabou se transformando em chacota mundial. Na eliminação do Brasil, não teve tempo de cair, mas, literalmente, jogou fora das quatro linhas, pois no pouco período que esteve dentro das quatro linhas, foi uma lástima. Fez um gol de pênalti, mas, ao invés de correr e pegar a bola e colocar no meio-campo, foi provocar o goleiro adversário. De sobra, levou cartão amarelo, deveria ter levado vermelho, como Xandão fez com o líder que tanto admira. Definitivamente, o menino Ney que sonhou ser o menino rei, criou nessa copa a figura do “jogador home office”:
Agora o deputado Luiz Carlos Hauly (Podemos - PR) quer criar uma lei que proiba os jogadores que atuam no exterior de serem convocados. Não precisa ser exatamente assim. Deveria haver um critério: para um jogador ser vendido ao exterior, teria obrigatoriamente que disputar três competições nacionais. Endrick, vendido pelo Palmeiras, seria um belo exemplo. Considerado uma de nossas maiores promessas, teria que ficar por aqui, enfrentar a dupla FLAXFLU, no Maracanã, ir ao tapetinho do Engenhão encarar o Botafogo e ir a São Januário enfrentar o Vasco. Jogaria ainda contra a dupla Gre-Nal, em Porto Alegre, e Cruzeiro e Atlético em Minas. Na Copa do Brasil enfrentaria CRB, ABC, Avaí, Sampaio Correia e, quando a competição fosse se afunilando, a barra iria pesando.
Só depois desses três anos de iniciação, teria passado pelo batismo de fogo de nosso futebol e poderia ser considerado apto e pronto para a seleção. Jogar na França, Espanha ou Inglaterra, países com no máximo quatro grandes clubes, é tarefa fácil, difícil é jogar no Brasil, onde no mínimo 12 clubes iniciam a competição em condições de vencer e sempre aparece um ou duas equipes surpresas, o Mirassol está aí para provar.
Na estreia da seleção contra o Marrocos, o que vimos foi um bando de jabutis que chegaram lá, sem o torcedor brasileiro saber exatamente quem eram, e só empresários, dirigentes e comentaristas nos meios de comunicação que se beneficiam com essas transações conseguem (tentam) justificar. Vencer o Haiti e a Escócia por 3 a 0 e, posteriormente, o Japão, no sufoco, por 2 a 1, era um sinal de alerta de que o time era uma baba e não iria mesmo muito longe. O que aconteceu na partida contra a Noruega foi um replay da estreia: um time perdidão, errando passes curtos, de 3, 4 metros, apático, perdendo todas no meio-campo, sem qualquer esquema tático, sem jogadas ensaiadas, sem saídas programadas. A seleção que encantou as arquibancadas com a remada viking, jogava por uma bola e nosso time, uma verdadeira Avenida Brasil, batendo cabeças, deu duas bolas a Haaland.
Mas como questionar o iluminado, o intocável Carlo Ancelotti, considerado por alguns como o melhor treinador do mundo? Um nome contratado a peso de ouro que trazia no currículo títulos expressivos pelo Milan, Chelsea, Paris Saint-Germain e Real Madrid. Todo currículo não impediu que o Brasil, jogando uma bolinha de dar dó, fosse eliminado. De Lancelotti guardaremos a lembrança de um homem frio, que vivia mascando chicletes e encheu a burra de dinheiro com o alto salário e os muitos anúncios publicitários. Será que o homem perdeu o tesão? Será que sua falta de tesão/imaginação contagiou a seleção?
Estou em Lomé, capital do Togo, e por aqui existe uma grande dificuldade de se assistir aos jogos da Copa, pois o grupo de comunicação do país decidiu não comprar os direitos de transmissão e a opção era um simples bar no bairro de Kagomé, a meia hora do Centro. As poucas pessoas – não chegavam a uma dezena - torciam para as seleções africanas, para o Brasil e secavam os europeus – à exceção da França, país colonizador com o qual têm uma relação de amor e ódio. Com o transcorrer da Copa, iam demonstrando tristeza e decepção com as saídas principalmente das seleções de Senegal, Costa do Marfim e Cabo Verde e, naturalmente, do Brasil.
Após a eliminação contra a Noruega, o apresentador da televisão local fez um comentário que resume todo esse texto: “Não reconhecemos esse Brasil. Não poderiam passar de fase, pois não mereciam mesmo ganhar”. Fui obrigado a concordar e só acrescentaria: “Não venceu o melhor, mas perdeu o pior”. Isso lembra uma música de Tom Jobim que reflete bem nossa seleção, nossa política, nosso país e os jabutis que se infiltraram em todos os setores e estão nos destruindo: "O Brasil não conhece o Brasil, O Brasil S.O.S. ao Brasil. O Brasil tá matando o Brasil”.
Pensando bem, não sei se o Brasil tá matando o Brasil, mas os empresários estão fazendo do Brasil, já há muito tempo, uma festa, para não dizer uma zona. Tudo é um todo: aproximaram-se do futebol e fizeram de nossos jogadores um balcão de negócios; infiltraram-se na política colocando no bolso partidos, governadores, senadores, deputados, vereadores e políticos picaretas de todas as espécies. Flertaram com a justiça e passaram a agradar juízes, desembargadores e até membros do STF. Agrados que se estendiam a festas, jantares em Nova York, consultorias milionárias para parentes. Empresários da fé que se aproximaram da igreja e com o lema "Deus, Pátria, Familia", vestiram a camisa amarela, fizeram arminhas, travestiram-se de pastores e transformaram as igrejas numa casa de mãe-Joana e verdadeiros bancos.
No país do pão e circo, com a decadência do futebol o circo se esvazia. Chega o momento de percebermos que, por tudo isso, nosso futebol anda tão desacreditado, nossos políticos tão desmoralizados, alguns de nossos juízes acusados de envolvimento com tretas e maracutaias e as igrejas lotadas de pastores gananciosos e de fanáticos fiéis, sem fé e sem rumo, transformados em gado. Esse é o diagnóstico perfeito de um país doente. Se só Jesus salva, só as eleições de outubro podem nos salvar.







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